domingo, maio 30, 2010

angela de godard

Godard construiu gestos e cores para a mulher encantadora e apresentou-a como Angela no filme Une Femme est Une Femme (1961). Ao acompanhar os movimentos apaixonantes da personagem na perspectiva do olhar admirador, a sensação despertada é de ânimo. Uma condução de narrativa simples que leva o espectador ao prazer incomensurável do êxtase cinematográfico.

imagem: screenshot do filme

sábado, maio 29, 2010

delphine

A solidão não é fácil, ainda mais quando não é uma escolha, mas fruto de inadaptação. Delphine, personagem do filme Le Rayon Vert (1986), de Eric Rohmer, é um exemplo daqueles que não estão colocados livremente. Ela vive em espécie de retiro pessoal e sob sombra incomodativa: protótipo dos que vagam sozinhos e descrentes.

O filme, extremamente sensível às dores de Delphine, discorre nas desaventuras dessa anti-heroína francesa, que em nada reproduz a sedução das figuras do cinema daquele país. Ela é o que não deu certo. E nisso não há charme algum.

Sejam nos acasos que se sucedem ou na série de acontecimentos como combinação de circunstâncias, acompanhar Delphine em seus pequenos passos traz a dimensão de quão difícil é desconstruir medos. Porque, no caso da personagem, esses medos são barreiras intransponíveis e, apesar de desejar permissão, ela não concebe a si liberdade. Talvez porque liberdade também não seja algo tão fácil assim.

imagem: screenshot do filme

sexta-feira, maio 28, 2010

memórias e saudades

O resíduo deixado pelo tempo - passado, perdido, desencontrado - é evidente e causa espanto. Quando a maior parcela finda-se, aquilo que resta permanece e sobrevive no que foi, como um fantasma que não dá sossego, conservando o ultrapassado. No fim, funciona como poeira alojada em cantos inacessíveis de uma velha casa: estará sempre lá, apesar de passar despercebida na maioria das vezes.

quinta-feira, maio 27, 2010

sendo breve

As atitudes rebeldes ainda vão nos levar a algum lugar.

segunda-feira, maio 24, 2010

vácuo

Minha cabeça é um mar de inquietações. E se isso pode soar estranho, anormal, ruim e instável para alguém, imagina para mim.

A sensação de vazio que ocupa (ou esvazia) algo que outrora esteve tão preenchido me rouba qualquer tentativa de (re)agir, por preguiça ou por falta de tesão... Me sinto um pouco Pascal, personagem do filme Le Pont des Arts, de Eugène Green. Mas, diferente dele, ainda não sei compreender/aceitar/ratificar minhas necessidades dentro do turbilhão de informações desconexas que recebo cotidianamente, como um tempo doído que se arrasta vagarosamente a fim de ser sentido por completo. Um tempo que nada poupa.

A música do filme não me sai da cabeça, talvez porque, assim como Pascal, eu desejo salvação. De Claudio Monteverdi, Lamento della Ninfa:

sábado, maio 22, 2010

dilaceração

"Sobre esse sentimento desconhecido cujo tédio, cuja doçura me inquietam, hesito usar o nome, o belo e profundo nome de tristeza" (SAGAN, Françoise. Bom dia, tristeza).
Músculos contraídos. Aos poucos, procuro enxergar outras possibilidades, vivendo um processo de identificação e para identificação de novos (ou velhos, desde que válidos) propósitos, me sinto testando meus músculos, me alongo - alongamento físico desconstrutor de tensões. Talvez possa dizer também que estou vivendo as conseqüências da ruptura do fluxo. (Ah... se o corpo não fosse espaço de contenção, mas meio extensivo entre o eu e os outros, o eu e o meio). Me rasgo. Me corrompo a fim de obstruir barreiras. Como dói. Os primeiros passos são os mais difíceis. Cansei. Dormi e, em seguida, como de costume, o dia amanheceu. Outros planos virão. E, no fim, o não-ser é sempre um ser-algo, limite frágil à percepção humana.

imagem: imogen cunningham

terça-feira, maio 18, 2010

ensaio

Cada vez mais, acredito que o estar no mundo, enquanto experiência, é solução pessoal e intransferível. Solução porque o Ser Uno dissolve-se e é dissolvido, entra e é invadido, como líquido que se deixa ir. E, cada vez mais ainda, acredito que a arte é meio e fim disso tudo. Por meio dela ou por ela mesma: obra de arte do devir e obra de arte do estar-ser. Cada vez mais ainda e outra vez, acredito que vida é possibilidade infinita de experimentar,
"ele é salvo pela arte, e através da arte salva-se nele a vida" (NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia).

segunda-feira, maio 17, 2010

dor da lucidez

Quando todas as certezas são corrompidas, e fechar os olhos já não é o bastante. A luz que vem da fresta cega: seja bem vinda, lucidez. Ela chega e não vai. Qualquer percepção será balizada pelo não-sentido, porque, enfim, o sentido se revelará como uma cortina frágil capaz de desvelar-se discreta ou veementemente.

Cansa ver escapar pelas mãos a realidade líquida, porque fluida, passageira, corrente, efêmera, fugaz. E não ter aprendido isso e não ter aceitado isso, anterior à chegada da lucidez, aumenta a dor - como algo pungente que revela o trânsito banal da vida; que sentida e vivida passa a ser essencial aos próximos passos. Essa dor sempre é inevitável, querer retarda-la ou antecipa-la é algo que foge do controle.

Tenho vivido meus dias de dor da lucidez como possibilidade de fechar os olhos diante da luz da fresta, sem com isso abandonar minha nova companhia. Ela permanece ao meu lado, mesmo quando não percebo ou quando prefiro esquece-la: ela a lucidez. Porque, enquanto dor, a tenho momentaneamente, como acontece com as sensações.

Neste caso, a dor se assemelha à dor de um parto (suponho). Pari a cria e aos poucos me reconstituo. Com o tempo, as cicatrizes estarão saradas. Minha cria, crescida. E eu a caminho, no caminho, caminhando, como sempre.

sexta-feira, maio 14, 2010

sistema excretor

Começar um texto pensando na incapacidade de falar sobre o assunto a que se dispõe é no mínimo arriscado ou perda de tempo. Porém, que é mais comum, escrever não é uma escolha, mas necessidade, seja para aliviar-se, seja para compartilhar. Escrever - uma vez que essa atividade não pede concomitantemente a presença de outrem para que ela se concretize – é ato livre, quem escreve mata e/ou faz nascer.

Deixar de ser através da escrita, transmutar-se através da escrita, sem compromissos segundos, porque tudo que você diz que é pode deixar de ser, mesmo depois de escrito. O não-compromisso é humano. Acontecia muito comigo o contrário, ao escrever tinha medo de me colocar tão severamente nas linhas de modo a enclausurar-me. A salvação seria então ato condenatório. Socorro! Que essas linhas nunca tenham força suficiente para me conter.

Ontem, comentando sobre esse blog, escutei: “eu não teria um blog porque minha opinião muda, muda muito rápido, muda sempre”, o que me fez pensar. Se o que for escrito aqui tiver como fim a perpetuação de idéias, opiniões, sonhos, eu paro. Desisto. Como já desisti e desisti porque não entendia plenamente o não-compromisso. Cada palavra escrita estigmatizava o que estava morto, deixando que apodrecesse em mim tudo. E, ao invés de expulsar, eu retinha.

Por necessidade: escrevo para matar - deixar ir o que já está morto. O nascimento é conseqüência. Mais que nascimento é vida. Morrer me ajuda a estar sempre viva.

quinta-feira, maio 13, 2010

primeiro ato

Viva a experiência ao máximo e depois volte como se fosse a primeira vez....