Quando todas as certezas são corrompidas, e fechar os olhos já não é o bastante. A luz que vem da fresta cega: seja bem vinda, lucidez. Ela chega e não vai. Qualquer percepção será balizada pelo não-sentido, porque, enfim, o sentido se revelará como uma cortina frágil capaz de desvelar-se discreta ou veementemente.
Cansa ver escapar pelas mãos a realidade líquida, porque fluida, passageira, corrente, efêmera, fugaz. E não ter aprendido isso e não ter aceitado isso, anterior à chegada da lucidez, aumenta a dor - como algo pungente que revela o trânsito banal da vida; que sentida e vivida passa a ser essencial aos próximos passos. Essa dor sempre é inevitável, querer retarda-la ou antecipa-la é algo que foge do controle.
Tenho vivido meus dias de dor da lucidez como possibilidade de fechar os olhos diante da luz da fresta, sem com isso abandonar minha nova companhia. Ela permanece ao meu lado, mesmo quando não percebo ou quando prefiro esquece-la: ela a lucidez. Porque, enquanto dor, a tenho momentaneamente, como acontece com as sensações.
Neste caso, a dor se assemelha à dor de um parto (suponho). Pari a cria e aos poucos me reconstituo. Com o tempo, as cicatrizes estarão saradas. Minha cria, crescida. E eu a caminho, no caminho, caminhando, como sempre.

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