segunda-feira, julho 12, 2010

o ser (não-)livre

"Essa graça das marionetes é sublinhada por sua aparente leveza: quase não tocam o chão, nada as liga à Terra, pois são suspensas do alto. Representam um estado de graça, um paraíso perdido para o homem, que, ao afirmar-se de forma "livre" e vonluntária, torna-se consciente de si. O bailarino é um exemplo desse estado de decadência do homem: não é puxado do alto, mas sente-se ligado à Terra e, no entanto, para efetuar seus passos com graciosidade, tem de se mostrar leve. Tem de procurar conscientemente atingir a graça. Nisso reside o paradoxo do homem: não é um animal totalmente imerso no meio terrestre, nem a marionete angelical que flutua com graciosidade no ar, mas um ser livre que, em virtude de sua própria liberdade, sente a pressão insuportável que o atrai e liga à Terra, à qual, em última análise, não pertence" (ŽIŽEK, Slavoj. Lacrimae rerum).

sexta-feira, julho 09, 2010

exalar (ou um texto nascido de gestação estética)

Fico pensando, em tempos de adaptação, qual o impacto causado por agitações pertinentes. Primeiro, existe um pensamento agitado e um corpo inquieto, e que essa afirmação não ratifique a idéia do ser como fragmentos facilmente distinguíveis, ao contrário. O ser se materializa e se dilui nas várias manifestações da existência, sem que se possa encontrar os limites entre o que se diz ser atividade do corpo, da mente ou do espírito. O ser é uno.

Enquanto unidade preciosa detentora de infinitas possibilidades, o ser é no presente, somente podendo adotar o hoje (agora) como extensão viável da sua existência. Por isso, “tempos de adaptação” é algo permanente do eu-vivo. Caso contrário, os caminhos múltiplos intermináveis seriam confusos e desgastantes. É a constante sensação palpável do ser muitos e um só; é a angústia da opção como atividade exclusiva e não inclusiva.

Pronto. Nascem, então, vibrações cerebrais, carnais, espirituais próprias de pulsões voluntárias do prazer, por exemplo. O agora existe. Mas trabalhar na negação (ideal) do restante do tempo, que, neste caso, trata-se de um tempo sempre aberto, parece assustador e pouco seguro. São as vagas necessidades, propositadas pelo apelo do ser enquanto figura social. Papéis precisam ser exercidos com eficácia.

Pronto. Outro rompimento. As agitações pertinentes violam o estado social do ser. Ou melhor, o estado social do ser que ignora as necessidades, de fato, coletivas. Porque, no fim, compartilhar a existência é praticar a sua própria extensão, é vivenciar o outro na plenitude e conhecer a si como vida – situações pouco prováveis ou bastante raras. Quando existem rupturas no fluxo, tudo isso vem à tona.

Questões: o ser é levado ao fundo de um poço escuro, no qual encontra a si mesmo refletido em superfícies antes irreflexivas. Em diante, trava-se uma batalha de dificuldade altíssima: compreender, ou melhor, digerir os frutos do conclave. No mais, qualquer tentativa de regresso ao estágio anterior será falida, porque falsa, porque inviável.

Sejam reais ou não (os parâmetros para distinguir estão longe de serem idôneos), inquietações serão sempre passos em direção do desconhecido. O estrangeiro assume (e é), aos mais perspicazes, o gosto irrecusável do prazer. Sintomas gerados a partir da compreensão plena (mas vagarosamente erguida) do exercício do ser humano, que palpita e exala vida, que exerce a vida nos intervalos mais imperceptíveis da sua existência. É o estar extático! Vida em êxtase!

terça-feira, julho 06, 2010

förändringen

O tempo que traz e leva, deixando sempre algo de sagrado daquilo que se foi. Quando é possível atingir a fragilidade que separa o que permanece do que não mais é, o ciclo se fecha. E, pela permanência inevitável de algum pedaço de coisa, é que nada termina jamais.
"O círculo se fechou. Nada termina jamais. Onde quer que alguém plante raízes brotadas do seu eu mais puro ou verdadeiro, ali encontrará um lar.
Voltar não é revisitar algo que falhou. Posso percorrer as antigas trilhas sem amargura, porque outros pés agora têm prazer com elas" (ULLMANN, Liv. Mutações).

domingo, julho 04, 2010

outono

A sensação que tenho ao perceber a aproximação do fim é de estranhamento, num primeiro momento. Na verdade, não se trata, exatamente, de fim, mas, sim, de conclusão. Espécie de ciclo começado, desenvolvido e, finalmente, fechado, o que não declara um fim, porque a continuidade existe e é necessária.

O ciclo se fechou. E olhar ao redor e encontrar as coisas dispostas como há muito tempo não é fácil. As expectativas sempre me levam a lugares chocantes, atraentes, sedutores. Algo que, em muito, me faz fugir da realidade desgostosa. Essas criações todas... se elas pudessem falar, ao menos, uma só vez claramente o que são e significam, possivelmente essa seria uma oportunidade para eu distinguir aquilo que existe daquilo que não faz sentido algum. Porque, às vezes, o que me faz voar me prende e, suspensa no ar, eu fico. Então, tendo em mãos algo de material (real) seria mais fácil o processo duplo de (des)apegar-se.

Penso ser essa a estação outonal, na qual as folhas já amareladas vão, destacam-se de suas raízes e vão, seguem. Porém, neste caso, o ciclo de finda.

É uma coisa toda, uma necessidade toda de fechar o ciclo, tornar as coisas redondas, acabadas e independentes para assim tornar o terreno aberto e livre. Depois, vem o inverno e, depois, a primavera.

imagem: robert and shana parkeharrison