quinta-feira, dezembro 30, 2010

embaralho

às vésperas de um fim, a pensar no próximo começo. talvez o mal esteja aí, em pensar.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

fim de 2010

das prisões da existência, muitas serão irremovíveis
outras é uma questão de insistência, persistência, força...
outras, de necessidade mesmo: ou rompemos ou morremos

eu persisto, levando meu barco
caminhando de mãos dadas com o ar, como diz thiago de mello

(por medo, eu abandonaria a metade da vida que vivo)
por tesão, eu continuo vivendo-a.

sábado, setembro 18, 2010

dias de incongruência

Em contagem regressiva pelo fim (ainda que provisório) dos dias de incongruência.

segunda-feira, agosto 23, 2010

os elos

Tempos paralelos. A fim de encontrá-los ou inventá-los
Na busca da emoção, inebriados são os sentidos e os sentires
Mortos ou vivos
E são cada vez mais soltos, irresistivelmente humanos.

segunda-feira, agosto 16, 2010

silêncios

Em momentos, o silêncio parece tomar os sentidos, e qualquer que seja a vontade de expansão, nenhuma voz, nenhum ato, nada será dito.

segunda-feira, julho 12, 2010

o ser (não-)livre

"Essa graça das marionetes é sublinhada por sua aparente leveza: quase não tocam o chão, nada as liga à Terra, pois são suspensas do alto. Representam um estado de graça, um paraíso perdido para o homem, que, ao afirmar-se de forma "livre" e vonluntária, torna-se consciente de si. O bailarino é um exemplo desse estado de decadência do homem: não é puxado do alto, mas sente-se ligado à Terra e, no entanto, para efetuar seus passos com graciosidade, tem de se mostrar leve. Tem de procurar conscientemente atingir a graça. Nisso reside o paradoxo do homem: não é um animal totalmente imerso no meio terrestre, nem a marionete angelical que flutua com graciosidade no ar, mas um ser livre que, em virtude de sua própria liberdade, sente a pressão insuportável que o atrai e liga à Terra, à qual, em última análise, não pertence" (ŽIŽEK, Slavoj. Lacrimae rerum).

sexta-feira, julho 09, 2010

exalar (ou um texto nascido de gestação estética)

Fico pensando, em tempos de adaptação, qual o impacto causado por agitações pertinentes. Primeiro, existe um pensamento agitado e um corpo inquieto, e que essa afirmação não ratifique a idéia do ser como fragmentos facilmente distinguíveis, ao contrário. O ser se materializa e se dilui nas várias manifestações da existência, sem que se possa encontrar os limites entre o que se diz ser atividade do corpo, da mente ou do espírito. O ser é uno.

Enquanto unidade preciosa detentora de infinitas possibilidades, o ser é no presente, somente podendo adotar o hoje (agora) como extensão viável da sua existência. Por isso, “tempos de adaptação” é algo permanente do eu-vivo. Caso contrário, os caminhos múltiplos intermináveis seriam confusos e desgastantes. É a constante sensação palpável do ser muitos e um só; é a angústia da opção como atividade exclusiva e não inclusiva.

Pronto. Nascem, então, vibrações cerebrais, carnais, espirituais próprias de pulsões voluntárias do prazer, por exemplo. O agora existe. Mas trabalhar na negação (ideal) do restante do tempo, que, neste caso, trata-se de um tempo sempre aberto, parece assustador e pouco seguro. São as vagas necessidades, propositadas pelo apelo do ser enquanto figura social. Papéis precisam ser exercidos com eficácia.

Pronto. Outro rompimento. As agitações pertinentes violam o estado social do ser. Ou melhor, o estado social do ser que ignora as necessidades, de fato, coletivas. Porque, no fim, compartilhar a existência é praticar a sua própria extensão, é vivenciar o outro na plenitude e conhecer a si como vida – situações pouco prováveis ou bastante raras. Quando existem rupturas no fluxo, tudo isso vem à tona.

Questões: o ser é levado ao fundo de um poço escuro, no qual encontra a si mesmo refletido em superfícies antes irreflexivas. Em diante, trava-se uma batalha de dificuldade altíssima: compreender, ou melhor, digerir os frutos do conclave. No mais, qualquer tentativa de regresso ao estágio anterior será falida, porque falsa, porque inviável.

Sejam reais ou não (os parâmetros para distinguir estão longe de serem idôneos), inquietações serão sempre passos em direção do desconhecido. O estrangeiro assume (e é), aos mais perspicazes, o gosto irrecusável do prazer. Sintomas gerados a partir da compreensão plena (mas vagarosamente erguida) do exercício do ser humano, que palpita e exala vida, que exerce a vida nos intervalos mais imperceptíveis da sua existência. É o estar extático! Vida em êxtase!

terça-feira, julho 06, 2010

förändringen

O tempo que traz e leva, deixando sempre algo de sagrado daquilo que se foi. Quando é possível atingir a fragilidade que separa o que permanece do que não mais é, o ciclo se fecha. E, pela permanência inevitável de algum pedaço de coisa, é que nada termina jamais.
"O círculo se fechou. Nada termina jamais. Onde quer que alguém plante raízes brotadas do seu eu mais puro ou verdadeiro, ali encontrará um lar.
Voltar não é revisitar algo que falhou. Posso percorrer as antigas trilhas sem amargura, porque outros pés agora têm prazer com elas" (ULLMANN, Liv. Mutações).

domingo, julho 04, 2010

outono

A sensação que tenho ao perceber a aproximação do fim é de estranhamento, num primeiro momento. Na verdade, não se trata, exatamente, de fim, mas, sim, de conclusão. Espécie de ciclo começado, desenvolvido e, finalmente, fechado, o que não declara um fim, porque a continuidade existe e é necessária.

O ciclo se fechou. E olhar ao redor e encontrar as coisas dispostas como há muito tempo não é fácil. As expectativas sempre me levam a lugares chocantes, atraentes, sedutores. Algo que, em muito, me faz fugir da realidade desgostosa. Essas criações todas... se elas pudessem falar, ao menos, uma só vez claramente o que são e significam, possivelmente essa seria uma oportunidade para eu distinguir aquilo que existe daquilo que não faz sentido algum. Porque, às vezes, o que me faz voar me prende e, suspensa no ar, eu fico. Então, tendo em mãos algo de material (real) seria mais fácil o processo duplo de (des)apegar-se.

Penso ser essa a estação outonal, na qual as folhas já amareladas vão, destacam-se de suas raízes e vão, seguem. Porém, neste caso, o ciclo de finda.

É uma coisa toda, uma necessidade toda de fechar o ciclo, tornar as coisas redondas, acabadas e independentes para assim tornar o terreno aberto e livre. Depois, vem o inverno e, depois, a primavera.

imagem: robert and shana parkeharrison

terça-feira, junho 22, 2010

anotações de uma tarde

Sobre as palavras perdidas que poderiam permanecer assim por tempo indeterminado:

//teus minutos se esgotam
na velocidade da luz
entre a colina e o vento
o limite delicado
teus minutos se esgotam
e o último suspiro está suspenso.

//venho como quem vem em busca de algo, que está constantemente ausente.

//o teu mar corre entre meus espaços.

//lá onde o homem abandonou a criança
restou o tempo aberto das esperanças amorfas.

//me perco onde me encontram
quando encontrada, me escondo.

quarta-feira, junho 02, 2010

suspiro

A dor do amor perdido e a alegria de continuar vivo estão constantemente atreladas em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009). O filme é sobre a necessidade de exteriorizar-se para fugir ou de tentar minimizar o peso da separação, que nunca é somente rompimento com outrem, mas, e princialmente, consigo mesmo.

Em paisagens incompreendidas, a personagem de Renato passa a relatar o que vê e sente, discorre entre amor e ódio e, sobretudo, ele fala de vida - a sua e a daqueles que atravessam o seu caminho, uma travessia recíproca. Porque, ao que me parece, ele também passa a ser determinante para esses outros, pessoas reais ímpares.

Renato redescobre as possibilidades sendo estrangeiro de si. E durante um alívio e uma recaída da saudade, ele acorda de sobressalto e percebe a vida em plenitude. Outra vez, mais uma vez, sempre de novo, entre o peso-leveza de estar vivo, sobrevivendo.

imagem: screenshot do filme

terça-feira, junho 01, 2010

linha reta

Às vezes, alegria se confunde com tristeza, que se confunde com alegria.

domingo, maio 30, 2010

angela de godard

Godard construiu gestos e cores para a mulher encantadora e apresentou-a como Angela no filme Une Femme est Une Femme (1961). Ao acompanhar os movimentos apaixonantes da personagem na perspectiva do olhar admirador, a sensação despertada é de ânimo. Uma condução de narrativa simples que leva o espectador ao prazer incomensurável do êxtase cinematográfico.

imagem: screenshot do filme

sábado, maio 29, 2010

delphine

A solidão não é fácil, ainda mais quando não é uma escolha, mas fruto de inadaptação. Delphine, personagem do filme Le Rayon Vert (1986), de Eric Rohmer, é um exemplo daqueles que não estão colocados livremente. Ela vive em espécie de retiro pessoal e sob sombra incomodativa: protótipo dos que vagam sozinhos e descrentes.

O filme, extremamente sensível às dores de Delphine, discorre nas desaventuras dessa anti-heroína francesa, que em nada reproduz a sedução das figuras do cinema daquele país. Ela é o que não deu certo. E nisso não há charme algum.

Sejam nos acasos que se sucedem ou na série de acontecimentos como combinação de circunstâncias, acompanhar Delphine em seus pequenos passos traz a dimensão de quão difícil é desconstruir medos. Porque, no caso da personagem, esses medos são barreiras intransponíveis e, apesar de desejar permissão, ela não concebe a si liberdade. Talvez porque liberdade também não seja algo tão fácil assim.

imagem: screenshot do filme

sexta-feira, maio 28, 2010

memórias e saudades

O resíduo deixado pelo tempo - passado, perdido, desencontrado - é evidente e causa espanto. Quando a maior parcela finda-se, aquilo que resta permanece e sobrevive no que foi, como um fantasma que não dá sossego, conservando o ultrapassado. No fim, funciona como poeira alojada em cantos inacessíveis de uma velha casa: estará sempre lá, apesar de passar despercebida na maioria das vezes.

quinta-feira, maio 27, 2010

sendo breve

As atitudes rebeldes ainda vão nos levar a algum lugar.

segunda-feira, maio 24, 2010

vácuo

Minha cabeça é um mar de inquietações. E se isso pode soar estranho, anormal, ruim e instável para alguém, imagina para mim.

A sensação de vazio que ocupa (ou esvazia) algo que outrora esteve tão preenchido me rouba qualquer tentativa de (re)agir, por preguiça ou por falta de tesão... Me sinto um pouco Pascal, personagem do filme Le Pont des Arts, de Eugène Green. Mas, diferente dele, ainda não sei compreender/aceitar/ratificar minhas necessidades dentro do turbilhão de informações desconexas que recebo cotidianamente, como um tempo doído que se arrasta vagarosamente a fim de ser sentido por completo. Um tempo que nada poupa.

A música do filme não me sai da cabeça, talvez porque, assim como Pascal, eu desejo salvação. De Claudio Monteverdi, Lamento della Ninfa:

sábado, maio 22, 2010

dilaceração

"Sobre esse sentimento desconhecido cujo tédio, cuja doçura me inquietam, hesito usar o nome, o belo e profundo nome de tristeza" (SAGAN, Françoise. Bom dia, tristeza).
Músculos contraídos. Aos poucos, procuro enxergar outras possibilidades, vivendo um processo de identificação e para identificação de novos (ou velhos, desde que válidos) propósitos, me sinto testando meus músculos, me alongo - alongamento físico desconstrutor de tensões. Talvez possa dizer também que estou vivendo as conseqüências da ruptura do fluxo. (Ah... se o corpo não fosse espaço de contenção, mas meio extensivo entre o eu e os outros, o eu e o meio). Me rasgo. Me corrompo a fim de obstruir barreiras. Como dói. Os primeiros passos são os mais difíceis. Cansei. Dormi e, em seguida, como de costume, o dia amanheceu. Outros planos virão. E, no fim, o não-ser é sempre um ser-algo, limite frágil à percepção humana.

imagem: imogen cunningham

terça-feira, maio 18, 2010

ensaio

Cada vez mais, acredito que o estar no mundo, enquanto experiência, é solução pessoal e intransferível. Solução porque o Ser Uno dissolve-se e é dissolvido, entra e é invadido, como líquido que se deixa ir. E, cada vez mais ainda, acredito que a arte é meio e fim disso tudo. Por meio dela ou por ela mesma: obra de arte do devir e obra de arte do estar-ser. Cada vez mais ainda e outra vez, acredito que vida é possibilidade infinita de experimentar,
"ele é salvo pela arte, e através da arte salva-se nele a vida" (NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia).

segunda-feira, maio 17, 2010

dor da lucidez

Quando todas as certezas são corrompidas, e fechar os olhos já não é o bastante. A luz que vem da fresta cega: seja bem vinda, lucidez. Ela chega e não vai. Qualquer percepção será balizada pelo não-sentido, porque, enfim, o sentido se revelará como uma cortina frágil capaz de desvelar-se discreta ou veementemente.

Cansa ver escapar pelas mãos a realidade líquida, porque fluida, passageira, corrente, efêmera, fugaz. E não ter aprendido isso e não ter aceitado isso, anterior à chegada da lucidez, aumenta a dor - como algo pungente que revela o trânsito banal da vida; que sentida e vivida passa a ser essencial aos próximos passos. Essa dor sempre é inevitável, querer retarda-la ou antecipa-la é algo que foge do controle.

Tenho vivido meus dias de dor da lucidez como possibilidade de fechar os olhos diante da luz da fresta, sem com isso abandonar minha nova companhia. Ela permanece ao meu lado, mesmo quando não percebo ou quando prefiro esquece-la: ela a lucidez. Porque, enquanto dor, a tenho momentaneamente, como acontece com as sensações.

Neste caso, a dor se assemelha à dor de um parto (suponho). Pari a cria e aos poucos me reconstituo. Com o tempo, as cicatrizes estarão saradas. Minha cria, crescida. E eu a caminho, no caminho, caminhando, como sempre.

sexta-feira, maio 14, 2010

sistema excretor

Começar um texto pensando na incapacidade de falar sobre o assunto a que se dispõe é no mínimo arriscado ou perda de tempo. Porém, que é mais comum, escrever não é uma escolha, mas necessidade, seja para aliviar-se, seja para compartilhar. Escrever - uma vez que essa atividade não pede concomitantemente a presença de outrem para que ela se concretize – é ato livre, quem escreve mata e/ou faz nascer.

Deixar de ser através da escrita, transmutar-se através da escrita, sem compromissos segundos, porque tudo que você diz que é pode deixar de ser, mesmo depois de escrito. O não-compromisso é humano. Acontecia muito comigo o contrário, ao escrever tinha medo de me colocar tão severamente nas linhas de modo a enclausurar-me. A salvação seria então ato condenatório. Socorro! Que essas linhas nunca tenham força suficiente para me conter.

Ontem, comentando sobre esse blog, escutei: “eu não teria um blog porque minha opinião muda, muda muito rápido, muda sempre”, o que me fez pensar. Se o que for escrito aqui tiver como fim a perpetuação de idéias, opiniões, sonhos, eu paro. Desisto. Como já desisti e desisti porque não entendia plenamente o não-compromisso. Cada palavra escrita estigmatizava o que estava morto, deixando que apodrecesse em mim tudo. E, ao invés de expulsar, eu retinha.

Por necessidade: escrevo para matar - deixar ir o que já está morto. O nascimento é conseqüência. Mais que nascimento é vida. Morrer me ajuda a estar sempre viva.

quinta-feira, maio 13, 2010

primeiro ato

Viva a experiência ao máximo e depois volte como se fosse a primeira vez....